THE WALKING DEAD – A ASCENSÃO DO GOVERNADOR

Os fãs de longa data The Walking Dead já conhecem o verdadeiro terror de Phillip Blake, mais conhecido como O Governador. Responsável pelos piores momentos do grupo de Rick, o passado do vilão finalmente é desvendado, no livro “The Walking Dead: A Ascensão do Governador”.

Neste livro, escrito por Jay Bonansinga, acompanharemos a luta pela sobrevivência de Phillip Blake, sua filhinha Penny e seu irmão Brian, logo após o início da epidemia zumbi que devastou o mundo.

O livro foi lançado em fevereiro de 2012 no Brasil pela editora Galera Record e é sucesso de vendas. Disponível Em nosso site. (acesse o link https://universolumina.com.br/produto/the-walking-dead-a-ascensao-do-governador/ )

LEIA O PRIMEIRO CAPÍTULO

Leia a seguir um trecho do primeiro capítulo de “A Ascensão do Governador”,

 

UM

Um pensamento passa pela cabeça de Brian Blake enquanto ele se encolhe na escuridão bolorenta, o terror sufocando o peito e a dor latejante nos joelhos: se ele tivesse um segundo par de mãos, poderia pelo menos cobrir os próprios ouvidos e talvez bloquear o som das cabeças humanas sendo partidas. Infelizmente, as únicas mãos que Brian possui estão ocupadas no momento, cobrindo os ouvidos de uma menininha ao seu lado no armário.

Ela tem 7 anos e está tremendo nos braços dele, se encolhendo a cada vez que ouve os sons intermitentes de PÉIM-GAHHH-TUM do lado de fora. Então vem o silêncio, interrompido apenas pelo som grudento de botas sobre o chão de cerâmica ensanguentado e uma enxurrada de sussurros raivosos no vestíbulo.

Brian tosse de novo. Não tem como evitar. Ele luta contra esse maldito resfriado há alguns dias, uma dor incessante nas juntas e nas maçãs do rosto da qual não consegue se livrar. Com ele, acontece sempre no outono, quando os dias na Geórgia começam a ficar mais úmidos e sombrios. A umidade penetra os ossos, consome a energia dele e dificulta a respiração. E agora Brian ainda sente uma rajada de calafrios toda vez que tosse.

Curvando-se com mais uma saraivada de tosses ritmadas típicas dos asmáticos, ele mantém as mãos sobre as orelhas de Penny. Brian sabe que os sons que emana estão chamando todo tipo de atenção do lado de fora do armário, a casa está na mais completa confusão, mas não tem nada que ele possa fazer. Ele vê pequenos feixes de luz a cada tosse, como se fossem filigranas de fogos de artifício cruzando as pupilas cegas.

O armário – que tem pouco mais de um metro de largura e talvez um metro de profundidade – é tão escuro quanto um tinteiro e fede a naftalina, cocô de rato e madeira antiga. Invólucros de plástico, cobrindo ternos e casacos, estão pendurados na escuridão, roçando o rosto de Brian. O irmão mais novo dele, Philip, disse que não tinha problema tossir no armário. Aliás, Brian poderia muito bem tossir a plenos pulmões, e acabar atraindo os monstros, mas o fato é que ele não podia passar aquela maldita gripe para a filhinha de Philip. Porque, se isso acontecesse, Philip quebraria a cabeça do irmão.

O surto de tosse passa.

Momentos mais tarde, mais uma série de passos irregulares interrompe o silêncio do lado de fora do armário: é mais um morto entrando na zona de guerra. Brian aperta as orelhas de Penny com mais força e a menina estremece diante de mais uma performance de “Cabeça partida” em ré menor.

Se lhe pedissem para descrever que merda estava acontecendo fora do armário, Brian Blake provavelmente voltaria ao tempo de dono de uma loja de discos falida e diria que o som dos crânios sendo rachados parecia uma sinfonia de percussão que poderia estar tocando no inferno – como um trecho meio louco de uma composição de Edgard Varèse ou um solo de bateria de John Bonham drogado -, com rimas e refrões repetitivos: a respiração ofegante dos seres humanos… os passos arrastados de mais um cadáver em movimento… o silvo agudo de um machado… o som grave do metal penetrando a carne…

…e, por fim, o grand finale, o splash de um peso molhado desfalecendo no piso de madeira grudento.

Uma nova interrupção faz um calafrio percorrer a espinha de Brian. O silêncio volta a tomar conta do ambiente. Com os olhos acostumados à escuridão, Brian vê o primeiro brilho do sangue arterial espesso passando por debaixo da porta. Parece óleo de carro. Suavemente, ele afasta a sobrinha da poça que vai se formando, puxando-a para junto das botas e dos guarda-chuvas encostados na parede.

A bainha do pequeno vestido jeans de Penny toca o sangue. Imediatamente ela puxa o tecido e esfrega a mancha com força, como se a simples absorção do sangue pudesse, de alguma maneira, infectá-la. Mais um surto de tosse faz Brian se curvar. Ele o segura. Engole em seco como se a garganta inflamada estivesse cheia de cacos de vidro e abraça completamente a menininha. Ele não sabe o que fazer, nem o que dizer. Quer ajudar a sobrinha. Quer sussurrar alguma coisa que passe segurança para ela, mas não consegue pensar em nada que possa inspirar confiança.

O pai dela é quem saberia o que dizer. Philip saberia. Ele sempre sabe o que falar. Philip Blake é o tipo do cara que diz as coisas que os outros gostariam de ter dito. Fala o que precisa ser falado e faz o que precisa ser feito. Como agora. Ele está lá fora com Bobby e Nick, fazendo o que tem que ser feito… enquanto Brian está escondido na escuridão como um coelho assustado, desejando saber o que falar para a sobrinha.

Considerando o fato de que Brian é o mais velho dos dois irmãos, é esquisito que ele sempre tenha sido o mais medroso. Mal chegando a 1,70 m de botas, Brian Blake é um sujeito franzino que mais parece um espantalho e que mal consegue encher o jeans preto justo nas pernas e a camiseta rasgada do Weezer que usa. Um débil cavanhaque, braceletes de macramê e um topete de cabelos pretos à la Ichabod Crane terminam de compor a imagem de um cão sem dono de 35 anos que parece preso numa síndrome de Peter Pan, e que agora está de joelhos na escuridão que fede a naftalina.

Brian engole um pigarro e olha para Penny, que está de olhos arregalados e o semblante mudo e aterrorizado, como um fantasma na escuridão do armário. Ela sempre foi uma menina muito quieta, com o rostinho de uma boneca de porcelana chinesa, o que dava ao semblante um aspecto quase etéreo. Mas, desde a morte da mãe, ela ficou ainda mais introvertida, mais estoica e distante, a ponto de parecer quase translúcida, com mechas de cabelo muito preto tapando seus imensos olhos.

Nos últimos três dias, ela mal disse uma palavra. É claro que foram três dias absolutamente extraordinários – e o trauma afeta as crianças de maneira diferente dos adultos -, mas Brian está preocupado. Penny pode estar entrando em estado de choque.

– Vai ficar tudo bem, garota – cochicha Brian, pontuando a frase com outra tossidinha.

Ela fala alguma coisa sem olhar para ele. Murmura enquanto encara o chão, uma lágrima escorrendo pelo rostinho sujo.

– O que foi, Pen? – pergunta Brian, aninhando-a nos braços e limpando a lágrima.

Ela volta a falar alguma coisa, depois repete mais uma vez e outra, mas não exatamente para Brian. Ela fala como se fosse um mantra, uma reza, ou um cântico.

– Nunca vai ficar bem. Nunca-nunca-nunca-nunca-nunca.

– Shhh.

Ele levanta a cabeça dela, apertando-a delicadamente contra as dobras da camiseta. Brian sente o calor úmido do rosto da sobrinha nas costelas. Volta a lhe tapar as orelhas, quando ouve o PÉIM de mais uma machadada do lado de fora do armário, arrebentando a membrana de uma cabeça, atingindo um crânio duro, atravessando as camadas de dura- máter e indo parar na gelatina cinzenta e polpuda do lóbulo occipital.

O som é igual ao de um taco de beisebol acertando uma bola molhada – e o jato de sangue é como um pano de chão batendo no assoa lho – seguido por um baque surdo, molhado e tenebroso. Estranhamente, para Brian essa é a pior parte: aquele barulho oco e úmido de um corpo caindo em cima do piso caro. Os azulejos foram feitos especialmente para a casa, com motivos astecas e detalhes elaborados. Uma bela casa… pelo menos, um dia foi.

Mais uma vez, o barulho termina.

De novo, segue-se um silêncio assustador. Brian abafa uma tosse, segurando-a como se fossem fogos de artifício prontos para explodir, para poder ouvir melhor a mínima diferença de respiração do lado de fora do armário e os passos pegajosos andando por cima daquele horror. Mas, dessa vez, o lugar está completamente silencioso.

Brian sente a menina se agarrar ao seu lado – a pobre Penny se preparando para mais uma saraivada de machadadas -, mas o silêncio se prolonga.

A alguns centímetros dali, o ruído de um trinco se abrindo e da maçaneta da porta girando faz arrepios percorrerem o corpo de Brian. A porta é aberta.

– Está tudo bem. Estamos bem. – A voz de barítono, rascante e regada a uísque, parte de um homem que se debruça para olhar os fundos do armário. Os olhos piscam na escuridão e o suor faz seu rosto brilhar. Vermelho pela matança de zumbis, Philip Blake segura o machado liso e lustroso nas mãos calejadas de trabalhador.

– Tem certeza? – murmura Brian.

Ignorando o irmão, Philip olha para a filha.

– Está tudo bem, queridinha. O papai está bem.

– Tem certeza? – repete Brian, tossindo.

Philip olha para o irmão.

– Você poderia fazer o favor de tapar a boca?

Brian funga.

– Tem certeza que acabou?

– Querida… – Philip Blake se dirige delicadamente à filha, leve sotaque sulista denunciando o embate feroz e violento que só agora começa a sumir dos olhos. – Eu preciso que você fique aí mais um minutinho, está bem? Até o papai dizer que está tudo bem e que você pode sair. Entendeu?

 

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